Sinto…

Sinto…

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– Preciso ir.
– Eu te levo!
– Moro longe, vou “andando”.
-Mas, e a cadeira?
– Ela tem rodas. Tenho braços fortes!

Subi a rua devagar. Ainda sentia seu cheiro que estava colado na minha camisa. Os carros passam muito rápido. Alguns buzinam. Alguns sentem pena.

Também sinto pena!

De quem é frio, do desprezo, da falta de amor um com o outro. Do egoísmo. Da conjugação do verbo, Eu posso, Eu tenho, Eu sou. Da negação, EU não posso, EU não tenho, EU não sou. Sinto pena do que as pessoas se tornam.

A camisa está suada. A rampa é íngreme. Ainda sinto seu cheiro.
No bolso da camisa o celular vibra. Uma mensagem de texto. Apenas leio.

“ainda te amo. Boa noite!”
Inconsciente dou risada. Sei que é ironia.

Sinto pena!

 

Jr.

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Prometa-me…

Prometa-me…

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Prometa-me que nesse sábado irá me acordar com um “Bom dia!” e tocando como trilha sonora esse álbum. Tente não deixar a janela aberta, pois ainda estou febril.

Sente ao meu lado quando for tomar café da manhã na cama. Terá bolo de mandioca feito pela minha mãe. Guardei duas fatias bem grande na geladeira para comermos juntos. O café será bem escuro com pouco leite e de preferência sem açúcar como de costume.

Não ligue a TV, acho desperdício de tempo ver a programação que passa. Vamos assistir um filme. Pode ser “Para sempre Alice”?

Tenho certeza que estaremos nos beijando enlouquecidamente antes de chegar ao meio do filme. Você me faz bem. Você me instiga. Você me excita.

Mas antes de tudo isso prometa que vai deixar pelo menos meu pé coberto se de madrugada por um segundo você puxar toda a coberta.

Prometa que mesmo você tendo que partir antes do final do dia será novamente um sábado feliz como os outros que vivi.

Mesmo não conseguindo fazer o que desejo…

…apenas prometa-me!

…até amanhã. Boa noite, durma com Deus!

-Jr.

Apenas estória…

Apenas estória…

vou+te+amar para+sempre

Construí uma casa, do jeito que me pediu, com quartos, sala e grama. Quadros na parede, piso branco e cortinas na janela. Uma mesa de centro com a base de madeira e um tampo de vidro.

Decidi derrubar, dentro dela ficaram os mais delicados presentes que ganhamos no casamento. Seus livros, seu ventilador de teto, sua cadeira preta que ficava em frente à mesa do computador. Nossas alianças e o álbum fotografado na praça da república.

O fim de um ciclo, de uma vida, de nossa vida.

Devolva-me o sobrenome que te dei, hoje terá um novo dono. Um novo anjo, um novo Nego.

Escolho. Resolvo. Desisto. Aceito.

Rasgo suas fotos, cartas, frases e palavras. O cheiro da água, não existe! Como também não existe um futuro. Não existem planos, desejos e sonhos.

Continue assim. Vai dar certo. Está dando certo. Obrigado. Seja feliz pois eu estou conseguindo. Consegui. Venci!

Obrigado pela história que se tornou um conto, um sonho. Apenas estória!

-Jr.

Quarto 724…

Quarto 724…

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…pela janela, Ela via a chuva escorrer no vidro, que já não está mais cristalino e sim embaçado pela ofegante respiração. Sentada em um banco de madeira qualquer, lembrou-se daquele quarto de hospital.
(…)
Entrou. Como havia dito, estava aflita. Tinha medo de reencontrar o que estava escondido. Medo do ego, da mente, do instinto e dos sentimentos. Pisciana. Vive de sentimentos, dos acontecimentos e dos detalhes.
Um quarto. Duas vidas. Três meses. Memórias, apenas memórias.
Ele deitado, mal se mexia. Ela sentada, estava inquieta. Silêncio. Nenhuma voz, nenhuma palavra. A primeira lágrima por pouco escorregou pelo seu rosto.
– Você está bem?
– Acho que sim…
Riram, conversaram. Havia uma energia diferente. Nostalgia? Déjà vu? Destino?
Saudade!
– Quando te vejo percebo que senti muito mais saudade do que imaginava.
Tiveram pouco mais de uma hora juntos para poder gravar em suas memórias um novo momento. O último?
E foi gravado.
Será lembrado para sempre, da mesma forma e intensidade que existe a recordação, do Lago, do Palio, do Bilhete, da Formatura, do Suflair, dos Sábados, do primeiro beijo, do primeiro Açaí e o primeiro dia em que não se viram.
Ela despediu-se com um beijo, e sem olhar para trás disse um adeus que nem Ela mesma conseguira ouvir. Foi embora. Mentiu quando disse que foi de transporte público, andou por quase uma hora. Chorou.
Debaixo de chuva chegou a sua casa e sentou-se em um banco de madeira qualquer. Pela janela via seu reflexo, suas lágrimas, sua felicidade. Lembrou-se do que havia vivido no quarto 724.
 -Jr.